domingo, 19 de setembro de 2010

Leitura das sentenças!

Leitura das sentenças!

Nas horas e nos dois ou três dias que se seguiram à leitura das sentenças aplicadas aos arguidos do processo Casa Pia, não faltava quem fosse à televisão dar as suas opiniões (mesmo aqueles que nada sabiam ou entendiam do processo), mais ou menos parciais, sobre um assunto dramático e doloroso, principalmente para as vítimas que sofreram o martírio das sucessivas relembranças, daquilo por que passaram. Todos os que comentavam armavam-se em peritos, nesta espécie de processo público jurídico. Foram para ali, processar e condenar as sentenças proferidas por uma vez em muito tempo, que vi a Justiça dar um tímido ar (positivo) da sua graça.

Todos aqueles que comentavam (uns que tinham qualquer coisa a ver com a justiça outros nem por isso) tinham uma coisa em comum. Queriam ter e dar visibilidade mediática ao que diziam e para isso, nada melhor do que um debate de leigos na matéria na própria televisão. Ignorância, acrescida de um estúpido ar de entendedor e acompanhada da patética certeza, de falar assertivamente.

O tal de Marinho e Pinto, dentro da sua arrogância de homem de Lei, criticou sobretudo as (no seu entender), muito pesadas penas.

Fez comparações sem sentido para justificar a sua opinião. Se quem mata uma pessoa, tem 25 anos de prisão quem pratica centenas de repugnantes e criminosos actos pedófilos a 2 ou 3 anos por cada um desses abomináveis actos, é só fazer as contas. Dá centenas de anos de prisão. Ora como sabemos, foi o arguido Carlos Silvino que sofreu a pena mais pesada com mais de 120 ou 130 crimes provados, sem contar um milhar de crimes que não quiseram provar. São muitos mas mesmo muitos, os crimes de que foi acusado esse reles indivíduo, que para cúmulo da pouca-vergonha e como que para o recompensar, até recebeu medalhas e louvores, enquanto praticava os crimes de que é acusado. Considero que um indivíduo com um currículo de crimes tão intenso, tendo sido condenado a apenas 18 anos de cadeia, foi como se tivesse sido agraciado.

Portanto, se realmente há qualquer coisa a criticar à justiça, é que foi por demais suave, não só neste mas em todos os outros arguidos, embora mais vale pouco do que nada. Não estando dentro do assunto, como ele próprio o reconheceu, Marinho e Pinto deu juízos de valores. Sempre polémico, arrogante, repleto de vanidade, insolente, e cheio de si, demonstrou que não deixa de ser o que é. Um homem, que vive do crime. Aliás, como a grande maioria dos advogados.

Quando a apresentadora lhe perguntou o que pensava do sofrimento das vítimas, ele engasgou-se (não deveria estar à espera dessa pergunta) e demonstrou pela forma como respondeu, um evidente desdém e mesmo desconfiança pela denominação de vítimas. Deu a entender com essa atitude e durante todo o debate que se seguiu, que ali as vítimas, eram os arguidos. A apresentadora da RTP, também concedeu a Carlos Cruz a maior parte do tempo que duraram as discussões. Era evidente a sua preferência e quase conivência para com Carlos Cruz. Talvez assim não fosse, se ela tivesse um filho entre as vítimas.

Sem conhecerem a fundo os meandros deste processo (como é o meu caso, pois que só o seguia pelas notícias que vinham a público), criticavam as pesadas penas a que os arguidos foram sujeitos, esquecendo as vítimas ou relegando-as para segundo ou terceiro plano.

Tudo começou ainda no tribunal, com a teatral intervenção de Carlos Cruz no momento da leitura da sua pena e a falta de compostura da parte do seu advogado Sá Fernandes, que o levou a uma intempestiva e furiosa altercação, com a Juíza que presidia o Processo. Foram cenas indignas, vindas de pessoas supostamente cultas, tanto da parte do réu como da parte do seu advogado. Imagens deploráveis, aproveitadas e mediatizadas até ao excesso pelos canais de televisão e que demonstram bem, a qualidade de gente (advogados e réus), que se encontram neste processo.

Uns que querem, nem que seja pela força do dinheiro ser inocente, outros que não querem perder este processo, por nada deste mundo. Prestígio obriga.

Todos esses tubarões da advocacia, foram neste processo derrotados por um jovem advogado praticamente desconhecido, mas que tinha a razão do seu lado. Sem a arrogância própria da vanidade e da superficialidade que caracteriza os que já se consideram barões naquele ramo, consciente da difícil tarefa que tinha pela frente, esse jovem derrotou-os e humilhou-os de uma maneira limpa de expedientes. Sem recurso a estratagemas, sem recurso a falsos testemunhos nem a práticas de denegrição, este jovem mas já brilhante advogado, venceu-os com sabedoria, frontalidade e honestidade. Raramente, a honestidade vence na Justiça em Portugal, mas este jovem arrasou-os e fê-los passar por uma (para eles) muito humilhante e merecida derrota. Para este mestre da advocacia, o que contou foi o esclarecimento da verdade e que a justiça fizesse o que tinha a fazer. Justiça.

Gostaria que fosse sempre assim. Que a verdade, viesse sempre ao de cima.

Querendo eu também dar a minha opinião, penso que em caso de culpabilidade provada, as penas foram tudo menos pesadas. Foram mesmo leves em demasia. Foram todos condenados, por muito menos actos do que aqueles que realmente cometeram. A maioria desses abomináveis actos não se pôde provar, portanto não faltaram as provas (as vítimas). Também a Gertrudes Nunes, pela sua evidente cumplicidade neste caso, deveria ter sofrido uma pena de prisão efectiva, pois que emprestou ou alugou voluntariamente a sua casa sabendo de antemão, quais eram as libidinosas práticas desses indivíduos. A pedofilia.

Talvez ela própria, tenha assistido a algumas dessas sceances. Dá para imaginar.

A Juíza na minha modesta opinião, não agiu bem ao absolvê-la alegando mudanças na lei, porque os factos aconteceram numa altura em que a lei previa prisão efectiva para a sua conduta e por isso mesmo, deveria ser condenada. Foi um erro crasso, a sua absolvição.

A casa dessa espécie inominável de mulher, foi transformada num antro de prazeres proibidos, desviantes e perversos para uns (os arguidos), de sofrimento, humilhação e muito traumatizante para os outros (as vítimas).

Horas depois da leitura das sentenças, na SIC e na RTP1, os advogados e alguns arguidos referiam-se quase exclusivamente às pesadas penas que os atingiram, dando-nos a impressão que tinham completa e propositadamente esquecido as vítimas.

Todos os arguidos, declaravam-se inocentes de qualquer crime de que eram acusados e ameaçavam recorrer novamente para os tribunais. O Carlos Cruz, foi o arguido mais presente nos canais de televisão e embora recusasse pronunciar a palavra cabala, ele pronunciava-a com letras gordas mas por outras palavras, não menos esclarecedoras. Chegou a declarar-se vítima de quem o condenou. Disse mesmo que foi um caso politizado, sem correr o risco de nomear quem eventualmente o perseguira. Deve ter ouvido vozes. Como todos sabemos, os culpados costumam sempre clamar inocência, mesmo quando as circunstâncias que os levam à condenação, são por demais evidentes.

A ouvi-los (aos advogados e às vítimas), o tribunal deveria absolvê-los e condenar as vítimas.

Pessoalmente, não acredito que haja um único inocente neste processo e por isso quero por uma vez acreditar nesta Justiça, que se encontra muitas vezes metida em lamaçais e pântanos mal cheirosos e nauseabundos.

Este infindável, doloroso e penoso processo, teve tanto de longo como de cruel. Todos sabemos e está mais que provado, que é muito raro o condenado concordar que é culpado, ou que a pena que sofre é justa. Eu prevejo, que embora tenham sido julgados e levemente condenados, esses trapos da raça humana continuarão a recorrer, no intuito de nunca serem enjaulados. Não consideram suficiente, terem apenas sofrido uma quarta ou quinta parte, da pena que lhes deveria ser aplicada. Querem a absolvição, como se estivessem realmente inocentes. O melhor e único remédio, seria retirar-lhes o direito aos recursos, senão o processo arrastar-se-á até à prescrição, que é o que todos os arguidos querem embora alguns digam o contrário.

Absolvidos por prescrição!

Não fomos habituados a ver (principalmente em longos e importantes processos, que envolvem tanta cara mediática como este da Casa Pia), a Justiça fazer justiça. Talvez tenha sido simplesmente para desanuviar ou aliviar algumas consciências, que se encontrariam interiormente menos limpas ou mais pesadas. O Presidente do Supremo, tinha-nos dito que a Justiça sairia lavada e limpa deste processo, mas posso-vos garantir que tal não é o caso, pois se assim fosse, o suposto pedófilo Paulo Pedroso estaria entre os réus e seria como eles, condenado. Portanto, que não nos venham com essa treta da cara lavada.

Para que a Justiça saia um pouco mais limpa deste processo, teria também que condenar a Gertrudes Casa de Alterne e reabrir o processo do Paulo Pedroso, porque a história deste senhor foi muito mas muito mal contada, por quem o ilibou. Por estas e por outras, penso como muitas pessoas que a justiça com estas sentenças, só quis mostrar trabalho e redimir-se de culpas ocultas.

Também penso, que foram poucos os réus presentes num processo que segundo consta, deveria ter muito mais caras conhecidas e importantes (nomes sonantes), envolvidas nestas águas turvas.

Mais uma vez esses escaparam, muitos por prescrição, outros por interferências políticas na própria Justiça e que deixam grandes e feias nódoas, em qualquer Justiça que se preze.

Notícia de ultima hora!

Venho de saber agora pelo jornal das 20 horas, que o réu Carlos Cruz vem de declarar que há um erro no seu acórdão, o que eventualmente lhe permitiria a anulação da sua sentença. Não lhe vi a cara, mas não duvido que rejubile.

Será que esta justiça, não consegue concluir este processo ou terão infiltrado alguma toupeira, capaz de mais uma vez obstruir a justiça?

Com esta notícia (para ser sincero já esperava por alguma coisa do género, pois ao contrário do que é habitual, tudo me parecia decorrer anormalmente bem, sendo isso sinal de que alguma coisa não bate certo, pois que a nossa justiça nunca nos habituou a uma boa imagem de marca) deixo-vos imaginar mais alguns episódios para próximos dias, semanas, meses ou anos.

A Justiça badalhoca que temos, continua minada por toupeiras que constroem enormes corredores subterrâneos por debaixo do seu edifício, que até poderão um dia provocar o seu desmoronamento. Talvez um dia (quem sabe?) algum génio em etografia, descubra por entre os escombros dessa que hoje nomeiam de justiça, alguma pista que nos leve aos maiores prevaricadores da Ética, que hoje e desde há muito, continuam a minar essa mesma Justiça. Talvez até consigam explicar-nos com clareza, o porquê de tanta lama.

A ambição do poder, da riqueza, da fama, sabe-se lá. Talvez um dia os filhos, netos, bisnetos, trinetos ou tetranetos, dessa laia que hoje vive impune, se um dia se descobrirem os podres desses viscosos antepassados, tenham vergonha e deixem de usar o nome desses entes abjectos.

Talvez um dia (quem sabe?), a justiça seja isso mesmo. Justiça!

Justiça, na verdadeira acepção da palavra.

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